{"id":91920,"date":"2023-03-23T12:26:27","date_gmt":"2023-03-23T15:26:27","guid":{"rendered":"https:\/\/dev.mercuriopartners.com.br\/?p=91920"},"modified":"2023-03-23T17:56:52","modified_gmt":"2023-03-23T20:56:52","slug":"reservatorios-vertimento-hidreletricas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dev.mercuriopartners.com.br\/en\/reservatorios-vertimento-hidreletricas\/","title":{"rendered":"Reservat\u00f3rios e o vertimento nas usinas hidrel\u00e9tricas brasileiras"},"content":{"rendered":"<p><em>Escrito por Mariana Nunes, Gyslla Vasconcelos e Eduardo Faria<\/em><\/p>\n<p>Por conta do abundante <a href=\"https:\/\/dev.mercuriopartners.com.br\/en\/frio-janeiro-2023\/\">per\u00edodo \u00famido<\/a>,\u00a0recentemente, diversas usinas hidrel\u00e9tricas (UHE) do Sistema Interligado Nacional (SIN) entraram em opera\u00e7\u00e3o de controle de cheias. Para muitas, foi necess\u00e1rio verter \u00e1gua armazenada, como mecanismo de seguran\u00e7a das barragens.<\/p>\n<p>Todo ano, o ONS elabora o Plano Anual de Preven\u00e7\u00e3o de Cheias, que define os volumes de espera, ou seja, o espa\u00e7o vazio nos grandes reservat\u00f3rios, para acomodar e amortecer ondas de cheia do per\u00edodo \u00famido. As usinas hidrel\u00e9tricas de Furnas, Mascarenhas de Moraes, Luiz Carlos Barreto de Carvalho, Marimbondo e Porto Col\u00f4mbia abriram seus vertedouros para escoar o excedente de \u00e1gua. A a\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o ocorria h\u00e1 quase 11 anos no Brasil, foi determinada pelo ONS para controle de n\u00edvel dos reservat\u00f3rios, em decorr\u00eancia das fortes chuvas ocorridas em fevereiro na bacia do Rio Grande (MG\/SP). Outras usinas precisaram recorrer ao mecanismo de seguran\u00e7a, como as do rio Madeira e de Belo Monte, al\u00e9m dos grandes reservat\u00f3rios do S\u00e3o Francisco e a gigante Itaipu, no rio Paran\u00e1, que precisaram acionar a segunda calha de vertimento simultaneamente para escoar o excesso de \u00e1gua, o que n\u00e3o acontecia h\u00e1 quase 7 anos.<\/p>\n<h3><strong>O papel hist\u00f3rico dos reservat\u00f3rios al\u00e9m das hidrel\u00e9tricas<\/strong><\/h3>\n<p>Quando se fala em reservat\u00f3rios, imediatamente pensamos em usinas hidrel\u00e9tricas, que t\u00eam papel fundamental na gera\u00e7\u00e3o de energia no Brasil. Contudo, os grandes reservat\u00f3rios do Sistema Interligado Nacional v\u00e3o al\u00e9m da fun\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Reservat\u00f3rios s\u00e3o importantes infraestruturas de gerenciamento de recursos h\u00eddricos e a habilidade de gest\u00e3o das \u00e1guas define o sucesso das sociedades desde a antiguidade. As primeiras barragens que se tem registro foram constru\u00eddas h\u00e1 mais de 2.000 a.C. para conter cheias e garantir \u00e1gua em per\u00edodos secos, seja para abastecimento ou irriga\u00e7\u00e3o. J\u00e1 a primeira usina hidrel\u00e9trica do mundo foi constru\u00edda somente em 1878, nos EUA. No Brasil, a UHE mais antiga data de 1883, no Ribeir\u00e3o do Inferno, bacia do rio Jequitinhonha, em Diamantina (MG).<\/p>\n<h3><strong>As secas no Brasil<\/strong><\/h3>\n<p>A hist\u00f3ria de grandes barragens no Brasil se iniciou em 1880, como medida de combate a secas. Por tr\u00eas anos, o Semi\u00e1rido vivenciou um severo per\u00edodo de escassez, que levou a \u00f3bito mais de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1. A constru\u00e7\u00e3o de represas pode mitigar eventos extremos de escassez e de inunda\u00e7\u00f5es, que tendem a aumentar de intensidade e frequ\u00eancia, segundo os relat\u00f3rios de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas do IPCC (Painel Intergovernamental da ONU). Reservat\u00f3rios, ent\u00e3o, ao amortecerem ondas de cheias e armazenarem \u00e1gua para posteridade, s\u00e3o capazes de regularizar vaz\u00f5es (reduzem vaz\u00f5es de pico) e elevar vaz\u00f5es de estiagem.<\/p>\n<p>Um exemplo de consequ\u00eancias de severas estiagens \u00e9 o aumento da intrus\u00e3o salina na foz dos rios, que ocorre quando sua vaz\u00e3o \u00e9 baixa a ponto de permitir uma entrada mais agressiva da \u00e1gua do mar. Quando isso acontece, todas as atividades econ\u00f4micas que dependem de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua superficial ou subterr\u00e2nea ficam comprometidas com a \u00e1gua salgada \u201crio adentro\u201d e no len\u00e7ol fre\u00e1tico. A gest\u00e3o dos reservat\u00f3rios e sua consequente regulariza\u00e7\u00e3o de vaz\u00f5es \u00e9 importante para amenizar esses efeitos.<\/p>\n<h3><strong>A import\u00e2ncia dos reservat\u00f3rios para diferentes esferas<\/strong><\/h3>\n<p>Do ponto de vista eletroenerg\u00e9tico, esse tipo de usina hidrel\u00e9trica confere flexibilidade ao sistema, imprescind\u00edvel para respaldar a r\u00e1pida e crescente inser\u00e7\u00e3o de fontes intermitentes. Reservat\u00f3rios armazenam energia e s\u00e3o aptos a fornecer reserva de capacidade ao sistema (atendimento \u00e0 demanda de ponta) e prestar servi\u00e7os ancilares (controle de frequ\u00eancia e tens\u00e3o, acompanhamento de carga, reserva girante, etc.).<\/p>\n<p>Como servi\u00e7os n\u00e3o energ\u00e9ticos, eles garantem disponibilidade h\u00eddrica para outros usos, tais como irriga\u00e7\u00e3o, abastecimento humano, animal, industrial e at\u00e9 mesmo para processos na gera\u00e7\u00e3o termel\u00e9trica, por exemplo, refrigera\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de vapor nas caldeiras. Piscicultura (produ\u00e7\u00e3o de peixes), navega\u00e7\u00e3o, turismo e recrea\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se beneficiam do armazenamento e regulariza\u00e7\u00e3o de vaz\u00f5es.<\/p>\n<p>Discute-se muito o papel dos reservat\u00f3rios na matriz el\u00e9trica brasileira, mas \u00e9 essencial levantar tamb\u00e9m os demais aspectos socioecon\u00f4micos que dependem dos seus outros servi\u00e7os. Em outubro de 2021, atingimos a marca dos 23,56% de armazenamento, com 17% dos reservat\u00f3rios do Sudeste\/Centro-Oeste (respons\u00e1veis pelo maior armazenamento do pa\u00eds). Em fevereiro de 2022, ap\u00f3s diversas medidas de gest\u00e3o, acionamento de termel\u00e9tricas e um per\u00edodo \u00famido favor\u00e1vel, foi poss\u00edvel atingir 60% do armazenamento do SIN, que confere n\u00e3o apenas seguran\u00e7a energ\u00e9tica, como tamb\u00e9m alimentar, h\u00eddrica e econ\u00f4mica. No auge do per\u00edodo \u00famido de 2023, os armazenamentos alcan\u00e7am 68,86% para o SIN com 64,74% no Sudeste\/Centro-Oeste (17\/01\/2023).<\/p>\n<h3><strong>Por que a abertura de vertedouros das usinas deve ser vista como algo positivo?<\/strong><\/h3>\n<p>Ap\u00f3s a pior crise h\u00eddrica da hist\u00f3ria e depois de anos sem necessidade efetiva de controle de cheias em muitas bacias, pode ser visto como emblem\u00e1tico que tanta \u00e1gua tenha atingido os reservat\u00f3rios a ponto de ser preciso verter. Contudo, \u00e9 fundamental que os riscos de alagamento sejam gerenciados junto com as autoridades locais, como j\u00e1 vem sendo feito para regi\u00e3o afetada de diversas usinas.<\/p>\n<p>Os vertimentos indicam uma situa\u00e7\u00e3o de abund\u00e2ncia e conforto, tanto do ponto de vista da gera\u00e7\u00e3o quanto dos outros usos. Devemos entender que o vertimento n\u00e3o \u00e9 um desperd\u00edcio de \u00e1gua e n\u00e3o representa necessariamente uma falha de planejamento, uma vez que a previsibilidade hidro-meteorol\u00f3gica apresenta grandes incertezas. Mesmo adotando uma estrat\u00e9gia \u00f3tima, com todos os recursos tecnol\u00f3gicos dispon\u00edveis, n\u00e3o h\u00e1 como evitar o vertimento em cen\u00e1rios hidrologicamente mais favor\u00e1veis.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o do sistema que evitaria qualquer vertimento necessariamente elevaria os riscos de falta de energia: seria preciso aumentar os <a href=\"https:\/\/dev.mercuriopartners.com.br\/en\/faixas-operativas-reservatorios\/\">volumes de espera<\/a> (espa\u00e7o vazio deixado no reservat\u00f3rio para acomodar ondas de cheia). Com tal pol\u00edtica operativa, caso viesse a ocorrer o pior cen\u00e1rio hidrol\u00f3gico, o espa\u00e7o vazio que evitaria vertimento pode justamente ser a energia que faltaria para o atendimento do sistema. Outra alternativa seria construir reservat\u00f3rios enormes, de modo a acomodar mais \u00e1gua para os momentos de cheias, mas isso n\u00e3o seria nem economicamente nem socio-ambientalmente vi\u00e1vel.<\/p>\n<h3><strong>\u00c9 poss\u00edvel otimizar os usos da \u00e1gua?<\/strong><\/h3>\n<p>As chuvas, transformadas em vaz\u00f5es hidrol\u00f3gicas, junto com as condi\u00e7\u00f5es dos reservat\u00f3rios, s\u00e3o as principais vari\u00e1veis a serem monitoras na otimiza\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o do sistema el\u00e9trico. Essa otimiza\u00e7\u00e3o, considerando apenas a gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica, j\u00e1 \u00e9 complexa, mas se torna ainda mais complexa quando levamos em conta os m\u00faltiplos usos da \u00e1gua. A \u00e1gua \u00e9 muito mais que um \u201ccombust\u00edvel\u201d para o setor el\u00e9trico, e sim um bem p\u00fablico de uso compartilhado, muitas vezes conflituoso, e com diversas interfaces, sinergias e <em>trade-offs<\/em> entre v\u00e1rios setores da economia. N\u00e3o h\u00e1 nada mais transversal e multidisciplinar que o uso da \u00e1gua.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entenda a import\u00e2ncia da \u00e1gua vertida em hidrel\u00e9tricas e dos reservat\u00f3rios para os aspectos socioecon\u00f4micos do 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